Além do mRNA: RNAs não codificantes abrem novas fronteiras para terapias inovadoras (quinta-feira 3)

Debate destaca o potencial dos RNAs não codificantes e de novas plataformas de RNA para transformar o desenvolvimento de terapias e a medicina de precisão.

A mesa “A Future Beyond Messengers: Non-Coding RNAs as Targets for New Therapies”, realizada durante o 10º International Symposium on Immunobiologicals (ISI), reuniu pesquisadores e especialistas para discutir avanços científicos e desafios na aplicação de RNAs não codificantes e outras tecnologias baseadas em RNA no desenvolvimento de novas terapias.

Coordenado por Patricia Neves (Fiocruz/Bio-Manguinhos), o encontro contou com a participação de John Mattick (UNSW), Paulo de Paiva Amaral (Insper), Lucas Rocha (Mirscience) e Danielle Cunha (Fiocruz/Bio-Manguinhos).

Antes das apresentações principais, duas pesquisas foram apresentadas em formato de pôster oral. Renata Maria dos Santos discutiu a análise de agregados em mRNA livre e encapsulado em nanopartículas lipídicas, destacando implicações para a qualidade e estabilidade de vacinas de mRNA. Em seguida, Daniele Ramos Rocha apresentou avanços na consolidação da produção de mRNA-LNP em Bio-Manguinhos, incluindo a avaliação de atributos críticos de qualidade em escala piloto.

Abrindo a mesa, John Mattick abordou o papel dos long non-coding RNAs (lncRNAs) e seu potencial para transformar a biomedicina. O pesquisador destacou que esses elementos, antes considerados sem função, hoje são reconhecidos como componentes-chave na regulação genética e na compreensão de doenças complexas.

Na sequência, Paulo de Paiva Amaral discutiu os desafios de traduzir o conhecimento científico sobre RNAs não codificantes em aplicações terapêuticas. Segundo ele, o avanço nesse campo representa uma oportunidade estratégica para ampliar a participação do Brasil em tecnologias de ponta voltadas à medicina de precisão.

Lucas Rocha, da startup Mirscience, apresentou o desenvolvimento de RNAs sintéticos voltados ao tratamento de doenças genéticas musculares. Ele destacou a criação de novas plataformas terapêuticas com potencial para superar limitações de abordagens tradicionais, especialmente em doenças raras.

Encerrando as apresentações, Danielle Cunha apresentou pesquisas sobre o uso de RNA de interferência (RNAi) no tratamento do câncer de mama triplo negativo. Segundo a pesquisadora, os resultados obtidos até o momento são promissores, embora ainda existam desafios relacionados ao desenvolvimento clínico e à regulação dessas terapias.

Ao longo do debate, foram destacados gargalos importantes para a transformação do conhecimento científico em produtos terapêuticos, incluindo limitações de financiamento, desafios regulatórios e a necessidade de infraestrutura adequada para o desenvolvimento pré-clínico e clínico.

A discussão evidenciou que, embora ainda em estágio de consolidação, as tecnologias baseadas em RNA — especialmente os RNAs não codificantes — representam uma das fronteiras mais promissoras da inovação em saúde, com potencial para redefinir abordagens terapêuticas e ampliar o alcance da medicina personalizada.

Texto: Marcela Dobarro
Imagem: Monara Barreto