ISI 2026 debate inovação em saúde, cooperação internacional, terapias de RNA e combate à desinformação no primeiro dia do simpósio
O segundo dia do ISI 2026 aconteceu nesta quinta-feira, 7 de maio, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, reunindo especialistas nacionais e internacionais para discutir diagnósticos, desenvolvimento de vacinas, terapias baseadas em RNA e os desafios da desinformação em saúde pública. A programação foi marcada por debates sobre soberania tecnológica, preparação para pandemias, cooperação científica e fortalecimento da comunicação em saúde.
A abertura contou com a participação de Rosane Cuber, diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, e Ione Mendonça, diretora executiva do MAM. Ione destacou a importância de receber o simpósio em um espaço que recentemente sediou reuniões internacionais relevantes, como encontros do BRICS e do G20, além de reforçar a conexão entre ciência e cultura promovida pelo museu.
Rosane Cuber deu as boas-vindas aos participantes do 10º simpósio e lembrou que a semana marca as comemorações pelos 50 anos de Bio-Manguinhos. Ela destacou a iluminação do Cristo Redentor em azul no início da semana como símbolo da celebração e afirmou que, além das homenagens, o encontro representa um espaço de trabalho, construção coletiva e fortalecimento da ciência como bem público. Segundo Rosane, arte e ciência compartilham criatividade, sensibilidade e o impulso de questionar o mundo. A diretora também reforçou a importância da colaboração científica para garantir acesso equitativo à saúde e fortalecer o SUS.

Diagnósticos diante das mudanças climáticas e novas pandemias
A primeira mesa de debates do dia teve como tema “Diagnostics for a New Era” e foi coordenada por Antônio Gomes Pinto Ferreira, vice-diretor de Diagnósticos de Bio-Manguinhos/Fiocruz. Participaram da discussão Marilda Agudo Mendonça Teixeira de Siqueira, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Albert Ko, da Yale School of Public Health e Fiocruz, e Marcela Abreu, da Anvisa.
Antes das apresentações principais, foram apresentados dois trabalhos científicos em formato de pôster oral.
Marcelle Bral de Mello apresentou o estudo “Clinical performance and agreement of the Bio-Manguinhos DPP HIV 1/2 Rapid ImmunoBlot for confirmatory HIV diagnosis using the Ministry of Health’s Flowchart”, abordando desafios relacionados à confirmação diagnóstica do HIV, especialmente em regiões remotas com limitações estruturais e laboratoriais. A pesquisadora destacou o potencial da plataforma DPP Immunoblot para ampliar o acesso ao diagnóstico rápido e mencionou possibilidades de aplicação da tecnologia em outras doenças, como Chagas, leishmaniose, sífilis e dengue, dentro de uma perspectiva One Health.
Na sequência, Laís Pereira Ferreira Bento apresentou o trabalho “From neglected cold to severe acute respiratory infection: human rhinovirus genomics in Brazil reveals a mosaic of diverse genotypes”, voltado à vigilância genômica do Human Rhinovirus (HRV). A pesquisadora destacou a necessidade de ampliar os dados genômicos sobre vírus respiratórios no Brasil e reforçou a importância da vigilância molecular para monitoramento epidemiológico.
Abrindo a mesa principal, Marilda Siqueira discutiu os impactos das mudanças climáticas sobre doenças infecciosas e emergências sanitárias. Ela lembrou que, em 2024, a dengue atingiu regiões anteriormente sem circulação significativa da doença, cenário diretamente associado às alterações climáticas. A pesquisadora destacou iniciativas da Fiocruz, como o Observatório de Clima e Saúde e o CIDACS Clima, além de alertar que uma pandemia de influenza é considerada inevitável, ainda que não seja possível prever quando ocorrerá. Segundo ela, é necessário preparar não apenas tecnologias, mas também pessoas e instituições para futuras crises sanitárias.
Albert Ko abordou os desafios da fragmentação global na resposta às doenças infecciosas. O pesquisador criticou a atuação em “silos” separados entre setores, redes e regiões, apontando que a pandemia de Covid-19 demonstrou a ausência de integração global. Ele citou a mpox e o vírus Oropouche como exemplos de ameaças emergentes que vêm ultrapassando territórios historicamente afetados e reforçou a necessidade de abordagens integradas dentro da perspectiva One Health.
Representando a Anvisa, Marcela Abreu falou sobre os desafios regulatórios diante das novas tecnologias em saúde. Ela destacou que, enquanto a inovação costuma ser percebida pela sociedade como algo desejável, cabe às agências reguladoras avaliar riscos, estabelecer limites e garantir segurança. Para ilustrar essa diferença de percepção, utilizou a analogia de um jovem interessado em praticar parapente, enquanto a mãe assume uma postura cautelosa semelhante à de uma agência reguladora. Marcela destacou ainda desafios relacionados à inteligência artificial, incluindo proteção de dados, cibersegurança, transparência, explicabilidade e avaliação de risco. Segundo ela, a IA já apresenta crescimento significativo em softwares para dispositivos médicos e em diferentes áreas da saúde.
Nos comentários finais, Akira Homma participou do debate ao lado de Rosane Cuber. Rosane perguntou a Albert Ko se existem países que conseguiram integrar de forma mais eficiente os pilares discutidos por ele. O pesquisador citou experiências em países asiáticos, especialmente a Coreia do Sul. Já Marcela Abreu respondeu a questionamentos sobre uma visão regulatória mais integrada, afirmando que, embora a Anvisa tenha sido criada com foco em saúde humana, há abertura para incorporar dados e colaborações de outras áreas.

Cooperação Sul-Sul e fortalecimento da produção regional
A segunda mesa do dia discutiu os desafios e potencialidades da cooperação Sul-Sul em desenvolvimento biotecnológico, transferência de tecnologia e capacitação. Coordenada por Tiago Rocca, do Instituto Butantan, a mesa reuniu Priscila Ferraz, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Iin Susanti, da Biofarma/DCVMN, Fernanda De Negri, do Ministério da Saúde, e Chris Gill, da Gates Foundation.
Abrindo a sessão, Rodrigo Soares Caldeira Brant apresentou o pôster “Mass Spectrometry-Based Biochemical Profiling of SpiN Antigen Define Quality Control Attributes for GMP Production”, abordando estratégias de controle de qualidade aplicadas à vacina SpiN contra Covid-19. Em seguida, Laura Alves Ribeiro Oliveira apresentou o estudo “Longitudinal follow-up of individuals with post-covid conditions: characterization of immunological biomarkers and treatment outcomes”, voltado ao acompanhamento longitudinal de condições pós-Covid.
Participando virtualmente, Lin Susanti destacou a atuação da Developing Countries Vaccine Manufacturers Network (DCVMN) e ressaltou o papel histórico de Bio-Manguinhos como uma das instituições pioneiras da rede internacional de produtores de vacinas de países em desenvolvimento. A rede atua no fortalecimento da produção, inovação, pesquisa e fornecimento de vacinas de alta qualidade para cerca de 170 países, com foco na ampliação do acesso equitativo a imunizantes. Segundo Lin, a DCVMN busca fortalecer fabricantes de vacinas por meio de programas de capacitação profissional, incentivo à transferência de tecnologia, apoio à inovação e articulação de parcerias e financiamento. A iniciativa também atua na promoção de estratégias voltadas à preparação para doenças infecciosas emergentes e ao fortalecimento da segurança sanitária global.
Priscila Ferraz fez a segunda fala da mesa e aproveitou para apresentar a Global Coalition for Local and Regional Production, Innovation and Equitable Access, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção regional de tecnologias em saúde e à promoção de acesso equitativo. A coalizão foi criada como uma plataforma global de cooperação internacional que reúne governos, organizações internacionais, instituições científicas, setor produtivo, organizações filantrópicas e sociedade civil, com o objetivo de ampliar o acesso a vacinas, terapias, diagnósticos e outras tecnologias em saúde, com foco especial em doenças negligenciadas e populações em situação de vulnerabilidade, sobretudo em países em desenvolvimento.
A iniciativa surge como resposta às desigualdades estruturais evidenciadas durante a pandemia de Covid-19, quando a concentração geográfica da capacidade produtiva e a fragilidade das cadeias globais de suprimentos expuseram assimetrias históricas no acesso a tecnologias de saúde. Em 2024, os ministros da Saúde do G20 reforçaram o compromisso de enfrentar essas barreiras e promover um acesso mais justo a insumos essenciais.
Priscila destacou ainda o lançamento de chamadas voltadas para projetos na área de dengue, como parte dos primeiros movimentos operacionais da coalizão, com o objetivo de estimular colaboração internacional, inovação e fortalecimento das capacidades produtivas regionais em saúde.
Chris Gill, da Gates Foundation, parabenizou Bio-Manguinhos pelos 50 anos e destacou como diferencial da instituição sua integração ao Ministério da Saúde brasileiro, característica que, segundo ele, diferencia Bio-Manguinhos de outros produtores de vacinas no mundo ao colocar a saúde pública como objetivo central. Sua palestra abordou desafios relacionados à cobertura vacinal e à necessidade de desenvolvimento de vacinas combinadas, especialmente diante das lacunas de financiamento da Gavi. Gill mencionou doenças como sarampo e febre amarela e defendeu modelos de colaboração Sul-Sul como estratégia para ampliar acesso e capacidade produtiva.
Fernanda De Negri, secretária de Ciência Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, iniciou sua participação homenageando Akira Homma e destacou a importância de trazer debates internacionais para o Brasil, especialmente diante dos desafios enfrentados pelos países do Sul Global. Ela ressaltou a necessidade de fortalecer a soberania tecnológica, ampliar políticas públicas consistentes e investir em cooperação internacional. Segundo Fernanda, o governo brasileiro vem atuando para estimular o desenvolvimento tecnológico por meio de programas de inovação radical e parcerias estratégicas, buscando consolidar o país como ator relevante no cenário global da saúde.
No debate final, um dos temas centrais foi o acordo internacional para preparação pandêmica. Iin Susanti comentou as dificuldades das negociações e citou discussões envolvendo compartilhamento de patógenos e acesso a informações estratégicas. Tiago Rocca questionou Priscila Ferraz sobre articulação institucional e formação de força de trabalho, ela destacou iniciativas de capacitação ligadas ao Hub de RNA, além de mencionar que a Fiocruz deverá desempenhar papel estratégico na formação em produção e desenvolvimento de vacinas. Segundo ela, os financiamentos da coalizão também estão associados ao compromisso de compra por países membros.
Akira Homma questionou Fernanda De Negri sobre os desafios relacionados à competitividade da produção nacional diante de acordos internacionais de compra. Ela respondeu que é necessário equilibrar critérios de custo com a capacidade estratégica de resposta a futuras pandemias.

O avanço das terapias baseadas em RNA
A terceira mesa do dia foi dedicada às perspectivas terapêuticas relacionadas aos RNAs não codificantes e às novas plataformas de RNA. Coordenada por Patricia Neves, de Bio-Manguinhos/Fiocruz, a sessão reuniu pesquisadores e representantes de startups voltadas ao desenvolvimento de terapias inovadoras.
Abrindo a sessão, Renata Maria dos Santos apresentou o trabalho “Analysis of Aggregates in Naked mRNA and mRNA Extracted from Lipid Nanoparticles in a mRNA Vaccine against COVID-19”, voltado à análise de agregados em plataformas vacinais de RNA mensageiro.
Na sequência, Daniele Ramos Rocha apresentou o estudo “Bio-Manguinhos and New Generation of Vaccines: Consolidation of mRNA-LNP Production and Evaluation of Critical Quality Attributes at Pilot Scale”. A pesquisadora destacou o desenvolvimento da primeira plataforma de RNA 100% nacional com depósito de patente no Brasil e abordou processos de produção e escalonamento da síntese de RNA.
John Mattick, da UNSW, apresentou a palestra “Long Non Coding RNAs discovery and new therapies”, discutindo as possibilidades terapêuticas associadas aos long non-coding RNAs (lncRNAs) e seu potencial impacto sobre a biomedicina e a medicina de precisão.
Paulo de Paiva Amaral, do Insper, apresentou a palestra “From Non-Coding RNA biology to therapeutic translation”. O pesquisador relembrou sua trajetória inicial estudando plantas e destacou o impacto da descoberta da complexidade funcional do genoma humano. Segundo ele, o momento atual representa uma oportunidade estratégica para o Brasil participar da revolução do RNA aplicada a diagnósticos e terapias.
Representando a startup Mirscience, Lucas Rocha apresentou o desenvolvimento de RNAs sintéticos voltados a doenças genéticas musculares. O pesquisador explicou que a empresa desenvolveu a plataforma ATENA e uma molécula sintética chamada MT-29, com potencial para aumento de massa e força muscular. Segundo ele, terapias tradicionais apresentam limitações e toxicidade para doenças musculares raras, enquanto a nova abordagem busca alternativas mais específicas. A tecnologia encontra-se atualmente em fase pré-clínica.
Encerrando a mesa, Danielle Cunha, de Bio-Manguinhos/Fiocruz, apresentou pesquisas sobre RNAi para tratamento de câncer de mama triplo negativo. Ela destacou que terapias baseadas em RNA de interferência já possuem aprovações internacionais e afirmou que os resultados obtidos até o momento são promissores. Segundo a pesquisadora, o próximo passo do estudo será a realização de testes in vivo.
Durante o debate, Patricia Neves perguntou a John Mattick sobre os principais gargalos futuros envolvendo RNA não codificante. O pesquisador respondeu que as possibilidades são amplas e que o campo ainda possui enorme potencial de descoberta. Akira Homma questionou os participantes sobre as principais barreiras para transformar pesquisas em produtos finais. Paulo Amaral destacou dificuldades de financiamento para projetos de alto risco, especialmente até a fase clínica. Danielle Cunha mencionou desafios regulatórios e de controle de qualidade, enquanto Lucas Rocha apontou limitações de financiamento e infraestrutura para desenvolvimento pré-clínico no Brasil.

Comunicação científica e os desafios da desinformação
Encerrando a programação do dia, a última mesa abordou os desafios da desinformação em saúde pública e o papel da comunicação científica. Coordenada por Margareth Dalcolmo, a sessão reuniu Carolina Ofranti Sampaio, Flavia Ferrari e Billy Nascimento.
Antes das palestras principais, Manoela Ribeiro Bastos apresentou o projeto “MartinLab in schools: promoting science communication through the educational board game CARTelas”, iniciativa voltada à divulgação científica sobre terapias avançadas e células CAR-T para estudantes do ensino médio por meio de jogos educativos.
Na abertura da mesa, Margareth Dalcolmo destacou que o negacionismo e a desinformação não são fenômenos novos, embora tenham adquirido novas proporções com as redes sociais e as plataformas digitais. A médica compartilhou experiências vividas durante a pandemia de Covid-19, lembrando que inicialmente não tinha dimensão do impacto das fake news e da circulação de informações nas redes. Ela relatou que um vídeo gravado no início da pandemia alcançou milhões de visualizações em poucas horas, ampliando sua participação no debate público e na imprensa. Margareth também destacou sua atuação atual em iniciativas voltadas à preparação para futuras pandemias.
Carolina Ofranti Sampaio, Assessora de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, abordou estratégias de enfrentamento à desinformação em saúde pública. Segundo ela, a desinformação ganhou novas características em um ambiente de comunicação descentralizado, no qual plataformas digitais, algoritmos e filtros passaram a atuar como mediadores da informação. Carolina citou pesquisas indicando que quase 90% dos brasileiros admitem já ter acreditado em fake news e ressaltou os impactos da desinformação e dos discursos de ódio sobre instituições públicas.
A palestrante também apresentou o programa Saúde com Ciência, iniciativa interministerial voltada ao fortalecimento das políticas públicas de saúde e valorização da ciência. O programa prevê ações para identificar e compreender a desinformação, promover informação confiável e responder aos efeitos das redes de desinformação, especialmente no contexto vacinal. Os cinco pilares da iniciativa são: comunicação estratégica; capacitação e treinamento; cooperação institucional; acompanhamento, análise e pesquisa; e responsabilização.
Flavia Ferrari, bióloga, educadora e professora de ciências na educação básica, foi fundadora do movimento Todos pelas Vacinas e apresentou experiências ligadas à iniciativa, criada para fortalecer narrativas positivas sobre imunização. Segundo ela, confiança não pode ser imposta, mas construída coletivamente. A pesquisadora destacou ainda a importância de compreender os diferentes públicos e romper bolhas informacionais.
Encerrando a mesa, Billy Nascimento discutiu mecanismos de influência e assimilação da informação a partir de estudos em neuroeconomia e neuromarketing. Segundo ele, o cérebro humano não busca necessariamente os fatos e a verdade, mas conexões afetivas. O palestrante afirmou que disseminadores de desinformação exploram essas dinâmicas emocionais e destacou que o enfrentamento às fake news exige construção de pontes, empatia e compreensão das linguagens utilizadas por diferentes grupos sociais. Também explicou que a irracionalidade humana tem uma lógica e ao compreendermos ela podemos chegar a nos comunicar com o diferente ou quem pensa diferente.
Durante o debate final, Akira Homma ressaltou os esforços realizados para combater fake news e recuperar a confiança da população na vacinação. Segundo ele, a redução das coberturas vacinais demonstra que o enfrentamento à desinformação precisa envolver toda a sociedade.
Texto: Marcela Dobarro
Imagens: André Rocha
